| Antártica à vela
Autor: Julio Fiadi
Viajar de navio ou avião para a Antártica, o mais inóspito
e isolado dos continentes, já é uma experiência e tanto.
Mas atravessar o Oceano Austral num veleiro, da mesma forma que fizeram os exploradores
polares da época áurea, como Gerlache, Charcot, Amundsen, Scott
e Shackleton, e navegar entre montanhas, icebergs e fiordes do continente branco, é uma
das mais incríveis aventuras que se pode viver na época moderna.
Para fazer uma viagem deste tipo, são preciso duas coisas fundamentais
: um veleiro equipado para navegar em regiões polares, e uma tripulação
experiente e competente. Nas minhas expedições à vela para
a Antártica, eu não poderia estar mais bem "armado", pois naveguei
no veleiro de aço "Kotic II" de Oleg Bely e sua família, tanto
barco como seu comandante, lendas vivas nas navegações polares.
O veleiro construído em aço, forte o bastante para resistir a choques
com os traiçoeiros gelos flutuantes das regiões polares, está equipado
com o que há de mais moderno no mundo em sistemas de navegação
e comunicação, com isolamento térmico e aquecimento interno,
um potente motor diesel para quando não há vento e, principalmente,
um recurso que mudaria completamente a navegação em veleiros pela
Antártica: a quilha retrátil.
Acionada por um sistema de cabos e polias, a quilha retrátil pode ser
recolhida para dentro do casco quando o barco navega em águas mais rasas.
Assim, um veleiro que normalmente teria um calado de 3 metros, passa a navegar
em águas com apenas 1 metro de profundidade.
Além disso, esse tipo de quilha permite ancorar em lugares rasos o suficiente
para que um iceberg mal intencionado encalhe antes de alcançar o barco.
A Passagem do Drake é trecho de mar aberto que separa a América
do Sul da Península Antártica, e tem a fama de ser o local com
as mais perigosas condições de navegação do planeta.
As águas do Atlântico Sul, do Índico e do Pacífico
Sul juntam-se em torno da Antártica formando o Oceano Austral, que é a única
massa de água que circula o planeta sem nenhum obstáculo, em eternas
correntes para Leste. Mas no encontro do Pacífico com o Atlântico,
este enorme volume de água fica afunilado entre a América do Sul
e a Península Antártica, fazendo com que as correntes acelerem-se
ainda mais. Junte-se a isto as diferentes profundidades e os ventos uivantes,
que são os maiores fatores para a formação de ondas gigantes,
acrescentem-se as águas geladas e os icebergs que derivam para todos os
lados, e não fica difícil entender porque a Passagem do Drake tem
uma fama tão ruim.
Com as modernas tecnologias hoje disponíveis, que nos fornecem previsões
meteorológicas cada vez mais precisas, e graças à experiência
e sabedoria do Oleg em interpretar os sinais da Natureza e escolher uma "janela" no
tempo para o momento exato de iniciar a viagem, tivemos uma travessia do Drake
relativamente tranqüila. Quatro dias depois estávamos avistando as
maravilhosas montanhas da Antártica.
Nossa primeira ancoragem, a Ilha Deception, não poderia ser mais interessante.
Tendo a forma de um anel, com apenas uma pequena entrada para seu interior, a
ilha é um vulcão semissubmerso em atividade. Apenas as pontas da
sua cratera ficam para fora d'água. Após atravessar uma pequena
entrada que leva o sugestivo nome de "Foles de Netuno" (porque só mesmo
Netuno poderia fazer o vento soprar ali com tanta violência), entramos
para o interior da ilha, uma enorme baía circular. No fundo desta baía
existe uma pequena lagoa chamada Telefon Bay, formada em 1969 pela mesma erupção
vulcânica que destruiu uma base chilena que existia nas proximidades. Devido
ao pequeno tamanho da lagoa e à sua pouca profundidade, somente com barcos
como o Kotic é possível ancorar em Telefon Bay.
Em Deception começamos nossas caminhadas pela Antártica, visitando
colônias de pingüins e a estação baleeira abandonada
de Whalers Bay. Por estarmos próximos ao círculo polar, onde durante
o verão o sol só se põe por volta das 23hs, caminhávamos
sem nos preocupar com o anoitecer.
Se um homem cai nas águas geladas da Antártica, morre de hipotermia
em aproximadamente 3 minutos. Em algumas baías da Ilha Deception, no entanto,
o vulcão aquece a água ao ponto de deixa-la quente e fumegante
para um delicioso banho de mar. E assim foi possível ver alguns brasileiros,
com os mesmos maiôs e biquínis que normalmente usam em nossas praias,
nadando nas águas da Antártica.
De Deception navegamos mais para o Sul até uma região de microclima
privilegiado apelidada pelos pesquisadores de "cinturão da banana", devido
aos muitos dias de bom tempo e temperaturas mais quentes durante o verão.
O lugar justificou plenamente o apelido: tantos foram os dias de bom tempo, que
quase acabamos com nosso estoque de protetor solar.
Usando roupas especiais para águas frias, aproveitamos para fazer alguns
mergulhos (autônomos e livres). Encontramos águas tão cristalinas
como as do Caribe, e surpreendentemente, também fervilhantes de vida.
Visitamos algumas bases de pesquisa, como a americana Palmer Station e a ucraniana
Vernadski. Devido a falta de estrutura para receber embarcações
de grande porte, navios de turismo são proibidos de se aproximar. Já os
veleiros são bem vindos. Ansiosos por quebrar o isolamento (eles passam
dois anos inteiros na Antártica), os cientistas de Vernadski chegam a
colocar pequenas placas nas rotas dos veleiros, com convites para um drink em
suas instalações. Assim fomos acolhidos de forma carinhosa.
Existem alguns refúgios não habitados espalhados pela Antártica.
São cabaninhas de portas sempre destrancadas, equipadas para recepcionar
algum eventual explorador perdido. Na Baía Dorian, visitamos uma delas
e ficamos impressionados com os equipamentos mantidos ali pelos britânicos, à disposição
de quem precisar. Caixas e mais caixas de mantimentos, uma cozinha completa,
aquecedores, barracas polares, equipamentos de alpinismo, ferramentas e livros,
muitos livros. Publicações incríveis, a maioria sobre expedições,
que devem ser lidas ali mesmo. Cada veleiro que visita a cabaninha, e que tem
a bordo livros já lidos, costuma deixa-los no refúgio. Assim, num
lugar sem trancas e sem ninguém tomando conta, a biblioteca, em vez de
diminuir, só vai aumentando.
Em fevereiro de 2003, as prateleiras da biblioteca de Dorian receberam mais dois
livros: durante a expedição "Travessia do Drake", deixei um exemplar
de "Rumo aos Pólos" na cabaninha, e o Betão Pandiani deixou o seu
lindo livro "Rota Austral". Espero um dia poder voltar a vê-los, naquelas
hitóricas prateleiras de madeira.
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