De moto à Machu-Pichu, Atacama
e Salar de Uyuni
Autor: Julio Fiadi
Viajar está entre as coisas que mais me dá prazer na vida . Pode
ser de moto, veleiro, monomotor, bicicleta, a pé, ou até mesmo
nas páginas de um bom livro de expedições. Conhecer lugares,
pessoas e culturas diferentes, é para mim, uma das experiências
mais enriquecedoras e gratificantes que se pode viver.
Mas, fazer uma longa viagem de moto pela América do Sul, cruzando os Andes
por passos pouco visitados, era até então, um dos muitos sonhos
a realizar. Foi a sorte de ter nos amigos João Cordeiro e Zé Antonio
a mesma paixão pelas motos, que fez com que organizássemos uma
viagem saindo pelo sul do Brasil, cruzando Argentina, Chile, Peru e Bolívia.
Por serem parceiros de viagens anteriores, eu já sabia que sempre que
o roteiro permitisse, escolheríamos estradas menos utilizadas, muitas
vezes de terra, passando por lugares menos visitados.
Nossas motos, todas BMW modelo GS, eram as companheiras ideais para este tipo
de viagem. Além da tradicional confiabilidade da marca quando se trata
de longas distâncias, as GSs são muito confortáveis, estáveis
e rápidas nas estradas asfaltadas, e também enfrentam a terra,
pedra, areia e água, como se fossem feitas apenas para isto. Esta feliz
união entre On e Off- Road, é que cativou nossa paixão pelo
modelo da fábrica alemã.
Com os mapas abertos sobre mesa, começamos a traçar o roteiro e
calcular as distâncias. Para atravessar os Andes pelo Paso del Agua Negra,
cruzar o deserto de Atacama no Chile, visitar Machu Picchu no Peru, e voltar
pela parte andina da Bolívia passando pelo salar de Uyuni, ultrapassaríamos
fácil os 11 mil quilômetros.
Planejando fazer uma viagem sem paradas para manutenção, calçamos
nossas motos com pneus novos e fizemos uma revisão completa na Officer
BMW. Sabendo do desafio que teríamos pela frente, Fernando Lima, o chefe
da oficina, foi especialmente atencioso com nossas máquinas. O transito
pesado da saída de São Paulo em um sábado de carnaval, adiou
um pouco o prazer de pilotar na estrada. Mas o pior estava por vir: na BR 285
próximo a Ijuí, no Rio Grande do Sul, um Monza cruzou inesperadamente
a estrada bem na frente do João Cordeiro (que levava sua mulher Débora
na Garupa), e o choque foi inevitável.
Com a perna e o braço quebrados, a viagem do João terminou ali.
Mas não terminaram nem seu inabalável bom humor e nem seu companheirismo.
Com sua insistência para que continuássemos a viagem sem ele, despedimo-nos
do João e da Débora no Hospital de Caridade de Ijuí, e com
o coração apertado, tocamos em frente.
Em São Borja minha GS cruzou sua primeira fronteira internacional, e passamos
a rodar em estradas Argentinas. Poucos quilômetros depois do primeiro abastecimento
num posto da YPF, ficou evidente o quanto a gasolina argentina é boa.
Ou melhor, o quanto a nossa é ruim. Os motores passaram a trabalhar mais
suaves, e até o consumo por Km rodado diminuiu.
Cruzar os Andes pelo Paso del Agua Negra, foi um dos pontos altos da viagem.
Num trecho com 224 km de estradas de terra ( em espanhol, rutas de rípio),
atingimos 4550 mts de altitude, passando ao lado de blocos de gelo e bancos de
neve, cercados por montanhas pontiagudas.
Como gosto de fotografar e os cenários eram cada vez melhores, fizemos
diversas paradas. Mas, prevendo que a noite nos pegaria no meio do passo, o Zé Antonio,
que levava sua namorada Érica na garupa, alertou para necessidade de reduzirmos
as paradas fotográficas. Mais uma vez, os conselhos do Zé mostraram-se
corretos, e mesmo ele tendo que brigar muito para que eu me separasse das minhas
câmeras e lentes, só chegamos em Vicunha, do lado chileno, com noite
escura.
De La Serena seguimos para o norte pela Rodovia Panamericana, beirando o Oceano
Pacífico. Há muito tempo eu queria fotografar minha moto ao lado
da escultura "Grande Mão do Deserto", que fica próxima a Antofagasta.
O problema é que só chegamos perto da escultura as 11 e meia da
noite. Guiados pelo GPS que seguia um way-point criado pelo Zé Antonio
em uma viagem anterior, saímos do asfalto e entramos nas areias do deserto
em busca da "mãozona".
Consegui a minha fotografia com uma iluminação pouco convencional:
nem flash e nem luz natural. Usei apenas os faróis de milha das duas motos
como fontes de luz, para uma foto no meio da escuridão do deserto. Para
quem vem de Calama, é emocionante a chegada a São Pedro de Atacama.
A travessia do deserto com a aproximação pelo Vale da Lua, vendo
ao fundo o Vulcão Licancábur e depois dele a Cordilheira dos Andes, é de
tirar o fôlego.
São Pedro, um oásis espremido entre o deserto
e os Andes, é um daqueles lugares especiais do nosso planeta.
O Zé e eu rodamos juntos mais de 400 km na região,
visitando o Salar de Atacama, as Lagoas Grande e Pequena e o
Vale da Lua.
Tivéssemos mais tempo, teríamos rodado muito mais. Mas o Zé foi
chamado com urgência para um compromisso comercial, e nos despedimos
com tristeza na fria manhã do deserto. Ele saindo para uma corajosa
travessia solitária do Paso Sico em direção à Argentina,
e eu voltando para o Oceano Pacífico, para a seguir novamente rumo norte.
Por Arica deixei o Chile e entrei no Peru. Voltei a cruzar os
Andes, desta vez a 4700 mts de altitude, para depois bordejar
o Lago Titicaca em direção a Cuzco.
A visita a Machu Picchu superou minhas expectativas, e foi o ponto de início
do retorno. Na verdade uma volta ainda mais legal do que a ida, porque, contrariando
os conselhos da grande maioria dos meus amigos, resolvi voltar pela Bolívia.
Disseram-me que entrar sozinho no Peru já seria muito arriscado. Mas
atravessar a Bolívia, ainda mais em solitário, era só para
quem não está mais gostando da vida. É uma pena que tanta
gente ainda pense assim. A parte andina da Bolívia foi um dos lugares
mais encantadores que já vi na vida, e o povo, não poderia ter
sido mais amistoso.
É verdade que as estradas ao sul de Oruro -- com trechos de terra, pedra
e areia, e que cruzavam rios sem pontes -- foram bastante difíceis,. Diversas
vezes tive que tirar as botas e as calças, para com água acima
dos joelhos ( às vezes molhando os países baixos ), para procurar
os lugares mais rasos e de piso mais duro, por onde a moto pudesse atravessar.
Quando o rio era mais fundo, eu tirava toda a bagagem da moto ( 2 malas laterais,
top case, bolsa de tanque e uma enorme mala estanque que trazia sobre o banco
do garupa), para com a moto mais leve, tentar a travessia. Mais de uma vez
vi os dois cilindros do meu motor boxer desaparecerem completamente sob as águas
frias do degelo andino, mas por sorte, o motor não apagou nenhuma vez.
Quem quase apagou fui eu, pois a cada vez que tinha que carregar as malas atravessando
os rios gelados a pé, sempre acima dos 4000 metros, precisava sentar
e descansar um tempão, para retomar o fôlego e seguir viagem.
Mas apesar de difíceis, eram estradas lindas, e que me levaram a um
lugar mágico: o Salar de Uyuni. Com 200 km de diâmetro e um piso
que parece um intrigado mosaico de planas pedras de sal, o Salar de Uyuni parece
um oceano branco no meio do altiplano. Uma vez dentro dele, basta afastar-se
de suas bordas 20 km, para se perder as referências visuais de localização. É como
estar em alto mar. Com a ajuda do GPS, entrei 100 Km salar adentro em busca
da Ilha Pescado, onde "aportei" minha moto ao lado de enormes cactos.
A estrada de Uyuni para Tupiza foi a mais linda de todas que já passei.
Já sonho voltar a cruzá-la. Voltei à Argentina por La
Quiaca, e ao Brasil por Foz do Iguaçu. Minha fiel BMW GS rodou 12021
km em 21 dias, e foi uma companheira perfeita. Espero voltar a levá-la
para passear além de nossas fronteiras em pouco tempo. A Bolívia
certamente estará no roteiro.