A Rota de Shackleton
Autor: Julio Fiadi
Um brinde à Shackleton, no
Cemitério de Grytviken, antes da tentativa de travessia
da Ilha
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O explorador
britânico
Ernest Shackleton ficou famoso tanto por suas expedições
polares, como pela sua maneira peculiar de lidar com seus
comandados. Carinhosamente apelidado de "Boss", ou chefe,
por seus companheiros, Shackleton tinha como prioridade
a segurança e o bem estar de seus homens, o que
gerava uma fidelidade e adoração dos seus
comandados jamais alcançadas por seus concorrentes.
Superado por Amundsen e por Scott na corrida
ao Pólo Sul, Shackleton lançou-se a uma aventura
ainda maior: fazer a primeira travessia da Antártica,
passando pelo polo.
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Em 1914, a bordo do Endurance, um navio especialmente construído para
navegar nas regiões polares, Shackleton e mais 27 homens partiram rumo
ao Sul.
Num ano atipicamente frio, o Endurance não conseguiu alcançar o
Continente Antártico, e ficou preso no gelo a apenas um dia de viagem
do local de desembarque. Começava aí uma incrível aventura
antártica, e um dos maiores relatos de sobrevivência humana já registrados.
Derivando à sorte dos ventos e das correntes, O Endurance e seus homens
passaram 306 dias nas garras do gelo, até que em Novembro de 1915 o navio
foi esmagado pela monstruosa pressão e afundou nas águas geladas
do Mar de Weddell.
Comendo focas, pingüins e até os cachorros que puxariam os trenós,
Shackleton e seus homens seguiram caminhando mais 138 dias sobre blocos de
gelo flutuantes, arrastando consigo os 3 botes de apoio até que chegaram
a águas livres, lançaram os botes ao Mar e navegaram até a
Ilha Elefante.
Pela primeira vez em 497 dias os homens pisaram em terra firme. Mas a Ilha
Elefante era ainda um lugar totalmente isolado do resto do Mundo. Fora da rota
dos navios de caçadores de focas e baleias, até aquela data ninguém
havia desembarcado lá. Aguardar por socorro ali seria inútil.
Shackleton e mais 5 homens, à bordo de um dos botes do navio, o pequeno
James Caird, navegaram então por mais 16 dias nas águas mais
perigosas do planeta, e chegaram a King Hakoon Bay na Ilha Geórgia do
Sul. Devido aos rigores do clima, as condições do mar e a precariedade
da embarcação, esta travessia é considerada por muitos
navegadores como um dos maiores feitos náuticos de todos os tempos.
Mas ainda não era o bastante.
Para chegar ao lado Norte de Ilha, onde se encontravam as estações
baleeiras e pedir socorro não só para eles mesmos, mas principalmente
para os 22 homens que ficaram na Ilha Elefante, era ainda preciso atravessar
o interior da ilha.
Até aquela data, ninguém jamais havia penetrado as geleiras e
montanhas do interior da Geórgia do Sul. Após alguns dias de
descanso da dramática travessia marítima, Shackleton, Tom Crean
e Frank Worsley partiram para a tentativa de alcançar as estações
baleeiras do lado Norte.
Com apenas 17 metros de corda, uma ferramenta de trabalhar madeira pra ser
usada como Piqueta, botas velhas com travas feitas com parafusos tirados
do bote de madeira, e roupas que mais pareciam farrapos, os 3 homens partiram
rumo ao desconhecido.
Após 36 horas caminhando sobre geleiras e montanhas chegaram a base
baleeira de Stromnes. Depois de 3 tentativas, Shackleton conseguiu finalmente
retornar a Ilha Elefante e resgatar todos os seus homens com vida.
Para se ter uma idéia das dificuldades por eles encontradas, nos últimos
anos diversas expedições, usando os modernos equipamentos de
alpinismo disponíveis, tentaram seguir os passos de Shackleton e seus
2 companheiros. Poucos conseguiram. Não mais do que 20 pessoas, incluindo
aí os 3 primeiros, tiveram sucesso até a tentativa da nossa equipe.
O último grupo a conseguir era formado por Reinhold Messner, Conrad
Anker e Stephen Venables. Para se ter uma idéia da qualidade deste time,
Messner foi o primeiro homem a subir o Everest sem oxigênio e também
o primeiro a atravessar a Antártica sem o uso de cães ou tratores;
Conrad foi quem encontrou o corpo de George Mallory no Everest e Stephen é conhecido
alpinista britânico com inúmeras difíceis conquistas. Messner
terminou a travessia com o pé quebrado.
Num grupo onde eu era o único não americano ou britânico,
partimos de Ushuaia a bordo do navio russo R/V Grigory Mikheev, navegamos pelo
Oceano Austral até a Ilha Geórgia do Sul e desembarcamos em King
Hakoon Bay. Usando esquis e raquetes de neve, carregando mochilas e puxando
trenós, partimos da mesma praia cheia de pingüins e elefantes marinhos,
onde há 84 anos atrás os três exploradores iniciaram sua
caminhada.
Após 5 dias, um deles inteiro parado sobre a Geleira Tom Crean com mal
tempo, chegávamos a estação baleeira de Stromness, pelos
mesmos caminhos que Shackleton,Crean e Worsley percorreram.
Após atravessar a última montanha gelada e avistar a baia de
Stromness com sua estação baleeira, a emoção tomou
conta do grupo. Caminhamos até a casa do administrador da estação
baleeira, que em 1916 recebeu os três homens, e ali encerramos nossa
expedição.
Percorrendo as montanhas e geleiras do interior da Ilha e vendo as dificuldades
que Shackleton, Tom Crean e Worsley tiveram que superar praticamente sem nenhum
recurso, só nos fez crescer ainda mais a admiração por
estes incríveis exploradores polares.